O desastre carioca (por André Gustavo Stumpf)

A prisão do prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella é mais um capítulo no roteiro de desastres que ocorre na cidade do Rio de Janeiro. Cinco ex-governadores foram presos ou afastados. Dezenas de secretários, policiais em posição de chefia e mais recentemente o prefeito, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Ele era a grande aposta dos religiosos para chegar ao poder.

Todos os governadores eleitos depois da Constituinte de 1988 mantiveram relações próximas com bicheiros e milicianos. Há uma histórica leniência dos cariocas em relação a contravenções. Jogar no bicho é proibido, mas essa loteria existe há quase um século. Policiais protegem os bicheiros e são remunerados por eles.

Os milicianos resguardam as comunidades e cobram por isso. Os traficantes de drogas se associaram aos milicianos. Atrás deles vieram os traficantes de armas e os operadores das máquinas caça-níqueis. Policiais se relacionam com estas associações.

Flexibilizar as regras para porte, posse e venda de armas, reduzir o controle dos homicídios cometidos pela polícia e zerar os impostos de importação de armas leves é tudo que as milícias desejam. A venda de armas e munições é fonte complementar de receita dos milicianos. Zerar o imposto de importação permite que moderno armamento desembarque no Brasil a preços baixos. Bolsonaro não decepcionou sua base eleitoral.

O Congresso e o Judiciário conseguiram impedir o trâmite dos projetos de lei. Mas as preocupações com o assunto revelam que ele trabalha para armar o brasileiro e favorecer as milícias. Ele opera também no sentido de fragilizar os órgãos de controle e fiscalização. Tudo se encaixa. O presidente mostra preocupação com as milícias e fala o idioma dos religiosos. A verdade liberta.

Este é o pano de fundo do que acontece no Rio de Janeiro, antiga cidade maravilhosa, hoje paraíso de traficantes, milicianos, bicheiros, operadores de máquinas caça-níqueis e outras contravenções menores. O fato é que a milicia, composta por policiais ou ex-policiais, se associou a grupos profissionais do crime e opera junto com quadrilhas desde a fronteira brasileira com Paraguai, Bolívia e Colômbia.

Há um corredor aberto para todo tipo de tráfico. Dentro da cidade há um vácuo de poder. O Estado não cumpre seus deveres elementares.

O miliciano é o policial ou ex-policial que trabalha em grupo para proteger a comunidade de qualquer problema, eventual ou não. A população paga por proteção e recebe internet mais barata, gás, televisão a cabo com preço menor. Esse é o padrão destes grupos que se organizaram em todo o país.

No princípio, o objetivo era ganhar dinheiro com proteção, afastar bandidos e tráfico de drogas. E, naturalmente, sob proteção de Deus, com a forte presença de missionários de igrejas neopentecostais. A mistura de religião com pólvora resultou neste desastre carioca.

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Marcelo Crivella era o principal projeto político da Universal. Acabou preso. Ele inaugurou na Rocinha um centro com equipamentos ultra- modernos de tomografia, no terreno da Igreja Universal. Tudo com dinheiro do Estado, para favorecer os moradores da favela em nome de sua igreja.

Os milicianos estão sempre por perto da família Bolsonaro. Seu filho Flávio, senador, empregou milicianos no gabinete na Assembleia Legislativa e os condecorou. O principal ponto de contato com este mundo é o ex-policial Fabrício Queiroz, também ligado a milicianos como Adriano Nóbrega. A rachadinha é banal.

O problema é o envolvimento da família com as milícias na zona oeste do Rio de Janeiro. A Barra da Tijuca era quase inacessível para os cariocas até os anos 60. Era um local muito distante e havia o obstáculo do poderoso maciço da Tijuca. Foi necessário abrir túneis e fazer elevados para que aquela bela e vasta planície fosse descoberta pela especulação imobiliária. Lúcio Costa fez o plano piloto e o volume de construções explodiu. Há um outro Rio de Janeiro naquela área.

O Rio foi uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Recebeu as Olimpíadas de 2016. O barril de petróleo alcançou US$132, tudo conspirava a favor da cidade. De repente, o vento virou. As obras prometidas não foram entregues porque os governadores se revezaram no doce esporte da corrupção.

O valor do barril de petróleo caiu para menos de US$30 e a cidade entrou em falência. Recebeu uma intervenção federal, comandada pelo general Braga Netto, que é hoje o braço direito do presidente da República.

Em pouco tempo, o Rio perdeu a Fórmula 1, as grandes indústrias saíram da cidade, a Bolsa de Valores se mudou para São Paulo, o carnaval virou festa para turista estrangeiro e a juventude correu para as micaretas na Bahia.

Restaram traficantes, milicianos e personagens de outras bandidagens. É neste contexto que se enquadra a prisão do bispo Marcelo Crivella.

 

André Gustavo Stumpf escreve no Capital Político. Formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), onde lecionou Jornalismo por uma década. Foi repórter e chefe da sucursal de Brasília da Veja, nos anos setenta. Participou do grupo que criou a Isto É, da qual foi chefe da sucursal de Brasília. Trabalhou nos dois jornais de Brasília, foi diretor da TV Brasília e diretor de Jornalismo do Diário de Pernambuco, no Recife. Durante a Constituinte de 88, foi coordenador de política do Jornal do Brasil. Em 1984, em Washington, Estados Unidos, obteve o título de Master em Políticas Públicas (Master of International Public Policy) com especialização política na América Latina, da School of Advanced International Studies (SAIS). Atualmente escreve no Correio Braziliense. ⠀⠀⠀⠀⠀

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