Mostra em Beirute exibe obras de arte danificadas por explosão portuária

Uma exposição em Beirute, no Líbano, em cartaz neste mês, exibe obras de arte danificadas pela devastadora explosão portuária ocorrida em agosto do ano passado. Entre espelhos quebrados, lustres cristalinos espatifados no chão e pinturas rasgadas, a batizada Wounded Art (“arte machucada”, em tradução livre), no também gravemente afetado museu Villa Audi, não busca recompor as peças, mas apresentá-las de uma nova maneira.

“A ideia é refazer as obras de arte com música, poesia libanesa, literatura e, claro, uso apropriado de luz”, disse o curador Jean-Louis Mainguy ao jornal britânico The Guardian. Alocadas em pequenas salas, as peças artísticas são ambientadas com versos entoados em árabe e focos luminosos que, montados nas partes posteriores, chamam atenção para os danos causados pela explosão. Entre os objetos, está a escultura Entangled Love, da artista Nayla Romanos Iliya, cuja localização, antes do 4 de agosto, era no lobby do hotel cinco estrelas libanês Le Gray, situado a poucos metros do Porto de Beirute. Severamente danificada, a escultura levou Nayla a “um estado de quase coma”, segundo a artista, que havia perdido interesse em trabalhar, criar novas peças e viver, fundamentalmente, depois da tragédia.

“Exibir uma obra de arte que provavelmente suportou as mesmas agruras que eu foi uma fórmula mágica para mim. Sinto como se meu sangue tivesse voltado a circular”, disse Nayla.

‘Entagled Love’, de Nayla Romanos Iliya, danificada pela explosão portuária e em exibição no ‘Wounded ArtVilla Audi/Reprodução

Wounded Art também inclui artes feitas no pós-explosão e outras “remendadas”, como uma obra do artista inglês Tom Young feita de telas rasgadas vindas de uma pintura danificada. “A ideia principal é: por que restaurá-las?”, disse o curador Mainguy. “Por que não podemos simplesmente viver com os machucados? Por que temos de esquecer? Até onde temos que ir para conseguir conviver com essa ferida no nosso dia a dia?”

Em uma cidade que enfrenta três crises ao mesmo tempo — econômica, sanitária provocada pela pandemia e estrutural, pela explosão —, as artes expostas não são meras escolhas estéticas, “mas respostas para perguntas que estamos fazendo”. Desde 4 de agosto, em que 2.750 toneladas de nitrato de amônio mal armazenadas detonaram no Porto de Beirute, a capital libanesa trilha um lento processo de reconstrução, o sétimo em 5.000 anos de historia. “Os libaneses são conhecidos por encontrar esperança nos tempos mais escuros. Beirute foi reconstruída das cinzas sete vezes”, disse uma usuária no Twitter. “A Fênix se reerguerá novamente”, disse outro em alusão ao mito de um pássaro de fogo que renasce após ter sido consumido pelas chamas.

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