A saída da infectologista Luana Araújo do Ministério da Saúde

O jogo é duro mesmo. Não adianta ser competente. O importante mesmo é rezar pela mesma cartilha. Ter uma opinião própria é assinar sua sentença de ser carta fora do baralho. É o caso da médica infectologista Luana Araújo, que foi anunciada pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, como Secretária de Enfrentamento à Covid-19. No entanto, Luana deixou o ministério na sexta-feira, 21, exatos dez dias depois de ter sido chamada. O Ministério da Saúde tratou logo de divulgar uma nota oficial dizendo que está em busca de outro nome de perfil técnico e com ação baseada em evidências científicas. A nota oficial é isso que aí está, com poucas palavras. E a médica, por seu lado, negou-se a dar entrevistas sobre o assunto. Mas sabe-se abertamente que Luana Araújo deixou a pasta por pressões que já vinha sofrendo de todos os lados por não ter aceitado se conduzir diante da pandemia de acordo com a orientação do governo, contrária ao que pede a ciência. Num governo acusado de ter um “Ministério da Saúde” paralelo isso é coisa normal. A infectologista será convocada para depor na CPI da Covid para explicar o que de fato aconteceu para permanecer apenas dez dias no cargo.

O ministro Marcelo Queiroga diz apenas que Luana Araújo não chegou a tomar posse. A médica que saiu é formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-graduada em epidemiologia na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Pelo seu Instagram, ela informou que em seu discurso de apresentação fez questão de evidenciar sua postura técnica baseada nas evidências científicas, pautada pelo juramento médico que fez e que norteia todas as suas atitudes. Observou que vê a ciência como um instrumento de conhecimento e de educação para priorizar a vida sempre, como objetivo maior. O problema é o seguinte: a médica Luana Araújo sempre se posicionou contra o uso de cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina no combate à Covid-19, mesmo em pacientes com sintomas leves da doença. Usando as redes sociais, certa vez, Luana afirmou que o uso da cloroquina, por exemplo, representava um “neocurandeirismo” e “iluminismo às avessas”, destacando o Brasil “na vanguarda da estupidez mundial”. Esse comentário foi feito em resposta a uma postagem da Associação Médica Brasileira, em que defendia a autonomia do médico a prescrever a cloroquina.

Evidentemente que, ao saber disso, o presidente Bolsonaro não gostou. E as pressões começaram dentro do Ministério da Saúde. Vendo que aquela não era sua praia, Luana Araújo foi-se embora. No sábado, 22, o ministro Marcelo Queiroga convocou uma entrevista coletiva para falar da variante indiana do vírus. Negou-se a informar qual o motivo da saída da infectologista Luana Araújo, mas adiantou-se em dizer que ela não sofreu pressão de ninguém. Afirmou que não existe pressão no Palácio do Planalto e que, para ele, o assunto está encerrado. Mas o assunto não está encerrado, como diz o ministro, já que os comentários sobre a questão continuam. Encerrado ou não, Queiroga continua a dizer que Luana não tomou posse de cargo algum no Ministério da Saúde. Então assim, tem que seguir a cartilha presidencial no que se refere à saúde. Ao que tudo indica, o ministro Marcelo Queiroga aceitou as regras desse jogo. Ministro para quê? O remédio não é a vacina e sim a cloroquina, mesmo com a negação da ciência, o que, no Brasil, não significa coisa nenhuma. Nesta quarta-feira, 26, Queiroga deixou escapar uma afirmação importante ao dizer que o regime é presidencial e ele, como ministro, segue as normas do presidente. Como dizia Chacrinha, o velho guerreiro: ajoelhou, tem de rezar.

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