Drag Queen venezuelana faz performances em Boa Vista com influências latinas: 'muito legal ver aceitação à arte'

schimtz
schimtz Instagram
9 Min Read


Melanny D’Leon, atual Miss Drag Roraima, é uma criação do jovem Gilber Cedeno, de 22 anos, que escolheu o estado para fazer apresentações. De um lado Melanny D’Leon, uma performer confiante e poderosa eleita Miss Drag Roraima 2020 e, do outro, Gilber Cedeno, cabeleireiro venezuelano, de 22 anos, que vive em Boa Vista. Melanny é uma Drag Queen criada há cinco anos por Gilber que tem ganhado destaque na capital em performances com influências latinas e uma luta dupla: contra homofobia e a xenofobia.
Melanny começou a realizar trabalhos como Drag Queen em 2016, enquanto cursava faculdade de produção audiovisual em uma universidade na cidade de Barcelona, estado de Anzoategui, na Venezuela. Em 2018, quando a crise econômica se agravou no país, ela se mudou para Roraima.
Atualmente, se apresenta em casas de show de Boa Vista e coleciona apresentações como participação na lives da prefeitura para celebração das Festas Juninas e na Parada LGBTQIA+, também realizada de forma virtual devido à pandemia.
No ano passado, venceu o concurso Miss Drag Roraima, o primeiro promovido no estado. O evento foi realizado pelo grupo DiveRRsidade e ocorreu também de forma remota.
“O Brasil tem muita importância na construção da Melanny. Por isso, a Melanny se tornou essa personagem livre aqui em Boa Vista. Foi aqui que eu descobri essa parte de mim. Ela é muito brasileira”.
Melanny D’Leon, atual Miss Drag Roraima
Divulgação/R.Moreira
Gilber afirma que Melanny funciona como uma “válvula de escape”. Uma maneira que encontrou de tentar vencer os estereótipos colocados pela sociedade para a comunidade LGBTQIA+.
“Tentar me encaixar como gay é algo que me limita de diversas formas, como em regras indiretas de vestimenta ‘ah você deve se vestir de tal jeito para seguir o padrão’. A Melanny não é assim, ela faz a vida dela. Nas performances ela é quem ela bem entender. Eu aproveito ela para me desapegar desse mundo de padrões”, confessa a artista.
Inspiração e arte
Melanny tem ganhado destaque em performances com fortes influencias latinas
Arquivo Pessoal
Para conceber a Melanny, Gilber misturou todas as influências e experiências com a arte, e cita a origem venezuelana como o motivo principal de suas performances serem inspiradas no ritmo latino.
“Minhas influencias são uma mistura. Gosto de todos os estilos de drag e essa arte tem vários estilos muito distintos. Nessas referências, me identifico muito com as drags latinas, acredito que meu trabalho tenha uma influencia latina muito forte por muito do que eu sou, mas me identifico também com o estilo de drag feito pelas americanas. Isso tudo, sem perder a essência de uma drag queen caricata”, resume.
Mas, Gilber deixa bem claro que ele e Melanny são diferentes, e que Melanny é apenas um personagem incorporado como uma “expressão artística”.
“É importante separar a personagem de quem eu sou. É como o Paulo Gustavo que fazia a Dona Herminia, ou o Daniel Garcia que faz a Gloria Groove”.
Gilber relata aprender muito a ter autoconfiança com Melanny, e Melanny emprega em seu conceito a vivencia e as influencias de Gilber em uma “grande troca”.
“Aprendi com ela que não preciso da aceitação de ninguém, que eu sou feliz como sou, não tenho que ligar para a opinião dos outros. Ela é uma mulher poderosa, não é nem a metade do que o Gilber é”, relata Gilber sobre as lições aprendidas com a drag queen criada por ele.
Nascimento de Melanny e mudança para Roraima
“A Melanny me ajudou a me aceitar”
Arquivo Pessoal
Melanny nasceu em uma apresentação de trabalho quando Gilber ainda fazia faculdade na Venezuela.
A artista se mudou para o Brasil em 2018, quando Roraima enfrentava o auge da crise humanitária na Venezuela com a migração. Primeiro, ela veio para o estado para fazer compras necessárias para as produções da faculdade, e, só depois, decidiu ficar de vez.
“Durante uma disciplina da universidade, eu comecei a fazer vídeos, clipes, curtas, filmes com ela. Fui chamado para ser uma personagem que de manhã era um ‘gay padrão’, porém, à noite, ele se travestia e se soltava como drag queen. Eu amei a ideia, aceitei o papel, e desde então eu não parei mais, comecei a gostar dessa personagem”, relembra.
“Ela foi criada para um trabalho nesse curso que eu fazia, desde então então ela anda comigo, somos duas metades de um só”.
Melanny D’Leon em uma de suas performances
Arquivo Pessoal
Ela diz que a crise econômica vivida na Venezuela a motivou a se deslocar até Roraima, mas o motivo de viver no estado é o fato de ela “gostar muito”.
“Em 2018 estava estourando a crise econômica na Venezuela. Isso influenciou na minha vinda para o Brasil para comprar as coisas que eu precisava, mas não influenciou na minha permanência aqui. Estou aqui por que gosto”, contou a drag queen.
Melanny fez apresentações no seguimento junino em Boa Vista
Arquivo Pessoal
A Drag Queen conta que por mais que houvesse um crise econômica, na Venezuela havia uma cena cultural LGBTQIA+ muito organizada, com aceitação maior à arte drag.
“Antigamente, quando eu morava na Venezuela, havia muitas drags nas boates. Cada boate tinha uma casa de drag queens, onde as que já faziam shows encaminhavam as novatas para fazer as apresentações também. Tinha essa cultura nas boates LGBTQIA+. As mais velhas encaminhavam e preparavam as mais novas para se encaixar na cultura”.
Desde que veio para Roraima, Melanny incorporou muito dos elementos brasileiros e também regionais em sua personagem. Na Venezuela, a drag queen participava de filmes que seguiam roteiros. Aqui no Brasil, no entanto, faz performances livres e por isso afirma com convicção que o Brasil “a libertou”.
Melanny em uma apresentação em casa de show
Caíque Rodrigues/G1 RR
A artista lembra que no início da carreira, por ser venezuelana, não se sentia aceita no estado. Mas, essa realidade mudou e hoje em dia ela conquistou o próprio espaço. “É muito legal ver a aceitação das pessoas ao meu trabalho, à minha arte”.
“No começo não foi nada fácil, como tudo no início, ainda mais quando você quer recomeçar a sua história em um país que você não conhece a linguagem, não conhece a cultura, não conhece quase nada. Para conseguir me encaixar tanto na comunidade LGBTQIA+, quanto na comunidade brasileira foi complicado por causa da homofobia, e também a xenofobia. Tô aqui me acostumando com outro idioma, outras comidas, literalmente uma forma de viver diferente da que eu estava acostumada, porém não desisti!”.
Embora tenha conseguido conquistar o próprio espaço, na avaliação de Melanny, Roraima ainda precisa ampliar as possibilidades para a arte drag queen, principalmente devido à pandemia, em que muitos estabelecimentos fecharam, mas é essa realidade que a artista tenta mudar.
“Hoje eu vejo que o que estou colhendo os frutos do que estou construindo como Melanny e como Gilber. Encontrei pessoas que me apoiam na comunidade drag e na minha área profissional, para mim é muito gratificante ver esse respeito. Não foi fácil mas hoje eu me olho e vejo que valeu a pena a luta, valeu a pena não ter desistido”.
Melanny D’Leon divulga sua agenda de shows, fotos e vídeos de suas apresentações em sua conta no Instagram.
Melanny D’Leon com a faixa Miss Drag Roraima 2020
Arquivo Pessoal

Share This Article