Pai adere à internet para falar sobre a orientação sexual do filho e desconstruir preconceitos: 'Aprender a errar o menos possível'


Aos 57 anos, ex-militar Antônio Budel criou relação de entendimento e aprendizado com filho gay, Caio. Para ele, é preciso entender e respeitar, com disposição para se desconstruir diariamente. Pai e filho criaram juntos o canal
Reprodução/Instagram
“É mais que aceitar, é entender”. Com essa mensagem na cabeça, o ex-militar Antônio Carlos Budel, de 57 anos, entrou para o mundo dos canais nas redes sociais com uma missão nobre e especialmente urgente em uma sociedade estratificada em preconceitos: o de mostrar para outros pais a importância de se entender que a orientação sexual de um filho não é uma escolha.
Morador de Irati, nos Campos Gerais do Paraná, e pai de um filho gay, Antônio fez sucesso na internet após publicar um vídeo no Dia do Orgulho LGBTQIA+ em que ressalta a importância de se estar ao lado dos filhos. Veja, mais abaixo, o vídeo.
“Eu converso muito com o Caio [filho]. Ele me explica muita coisa, porque eu achando que estava certo em vários momentos, na verdade estava completamente errado. Aprendi muito com isso. Eu me analiso muito, tento aprender a errar o menos possível”, contou.
Em vídeo, pai falou sobre como orientação sexual dos filhos não é opção
Diante da repercussão do conteúdo nas redes, a ideia de criar um canal para publicar vídeos ganhou força e foi concretizada em julho deste ano com o nome “paidelgbt”, no Instagram e também na plataforma TikTok.
Para muito além do alcance em números, o aposentado acredita que a importância da ideia está em incentivar as reflexões e alcançar quem muitas vezes não daria ouvidos ao filho Caio Budel, de 26 anos, e outros tantos jovens que lutam diariamente pela causa.
“Eu disse para o Caio que precisava do apoio dele [para o canal]. Eu estou sempre aprendendo coisas novas, eu estou errando. E eu acho que quando é um pai falando, eu acho que para um outro pai é mais interessante. Porque a gente passa pela mesma coisa, a dificuldade no entender”, ressaltou.
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A visão é compartilhada por Caio, que reconhece as iniciativas do pai. Segundo ele, o primeiro vídeo divulgado por Antônio foi uma prova do que “realmente é ser pai quando se te um filho LGBTQIA+”.
“Ele vestiu a camisa do jeito que podia vestir, mais do que isso, falou com pessoas que eu não conseguiria nunca. São pessoas que não parariam para me escutar. Eu enquanto um recém-adulto, essas pessoas não estão interessadas no que tenho a dizer, mas quando veem uma pessoa como meu pai, com o semblante e a feição dele, elas param para escutar”, reconheceu.
Desconstrução: o aprendizado diário
Pai e filho não moram na mesma cidade, mas mantêm relação forte
Arquivo Pessoal/Antônio Budel
Segundo Antônio, o conselho mais genuíno que se pode dar a outra pessoa é deixar para trás ideias pré-determinadas e pensamentos que limitam a visão. Para ele, é necessário se estar aberto a aprender todos os dias.
Ao G1, pai e filho contaram sobre a relação de entendimento e compreensão existente entre os dois, mas, mais que isso, ressaltaram que o caminho até o momento atual foi repleto de desafios – até mesmo desentendimentos – e da necessidade de Antônio se desconstruir todos os dias.
Para o pai, muitas vezes o problema consiste também na ideia de que pais têm da relação familiar e acabam confundindo o papel fundamental de ser responsável, não dono.
“Eu digo que você tem título de proprietário da tua casa, do teu carro. Mas você tem registro do teu filho, você não é dono dele. Registro te dá responsabilidade por ele, para criá-lo, para dar informação para ele chegar no mundo adulto uma pessoa melhor. Você é responsável, não é dono”, apontou.
Com essa visão de mundo e com a certeza da importância de se estar ao lado do filho, Antônio conta que soube que o filho era gay quando Caio rompeu um relacionamento e precisou do conforto paterno em um momento difícil.
“O Caio tinha terminado com o namorado. Ele tinha simplesmente rompido com a pessoa que era companheira dele. Quando veio para mim eu não me preocupei com nada disso, eu me preocupei com a dor. Pouco tempo antes eu tinha passado por uma dor similar a essa, e ele me abraçou e disse que estava comigo. Naquela hora só pensei em retribuir, também estar junto dele”, relembrou.
Apesar de morarem em cidades diferentes, uma vez que Caio se mudou para a capital paranaense há cerca de três anos, os dois mantêm uma relação forte, de conversas constantes.
“A gente quer mostrar que meu pai não é perfeito e talvez erre mais algumas vezes, mas o importante é estar disposto a entender”, ressaltou o filho.
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