Pandemia, fuga de atleta, música brasileira: veja como os Jogos Olímpicos de Tóquio ficarão marcados para além do esporte


Foram as Olimpíadas dos protocolos rígidos contra a Covid, das crises políticas que invadiram as arenas e dos protestos, das discussões sobre saúde mental e diversidade. Mas a melhor participação brasileira fora de casa também será lembrada pelos atletas que se mostraram nas redes sociais e pelos hits nacionais nos locais de competição. Resumão olímpico: veja os fatos que marcaram as Olimpíadas de Tóquio
Os Jogos Olímpicos de Tóquio terminaram neste domingo (8) em uma edição marcada por ineditismos antes mesmo de começar — foram os primeiros da história adiados em um ano, por causa da pandemia do coronavírus. Assista ao VÍDEO acima.
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Além da preocupação com os protocolos de segurança e do alerta dos casos de Covid-19 em Tóquio, as Olimpíadas serão lembradas por discussões importantes como a saúde mental dos atletas e a diversidade. Também ficarão marcadas pelas questões políticas que invadiram o esporte, como o caso da atleta de Belarus que temia voltar para casa.
E foram também os Jogos em que os atletas usaram as redes sociais para mostrarem mais do que apenas as competições: competidores viraram influencers e mostraram o cotidiano da cidade sede, inclusive o calorão de Tóquio.
O Brasil, por sua vez, teve um desempenho muito bom. Conseguiu atingir um recorde de medalhas, e surpresas foram mais notáveis do que resultados frustrantes. Fora de campo, os brasileiros também deram show: as músicas do país tocaram nas arenas de Tóquio mesmo quando nenhum atleta verde amarelo competia.
Veja abaixo os destaques dos Jogos Olímpicos de Tóquio
Covid-19: recorde de casos no Japão, controle na ‘bolha’
Rua de lojas em Tóquio, no Japão, nesta sexta-feira (30)
Kantaro Komiya/AP Photo
A pandemia se tornou a grande história que guiou estes Jogos Olímpicos muito antes da abertura, em março de 2020. Naquele momento, por causa do coronavírus que começava a assustar o mundo, o Comitê Olímpico Internacional (COI) e o governo japonês concordaram em adiar em um ano o evento — algo inédito na história das Olimpíadas.
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Havia a expectativa de que a pandemia estivesse já sob controle em julho de 2021. Se é verdade que as vacinas trouxeram esperança e derrubaram os números de mortes no mundo, inclusive no Brasil, é verdade também a Covid-19 continua circulando no mundo com novas variantes mais transmissíveis.
Turista com máscara posa para foto em frente aos anéis olímpicos na Baía de Tóquio, no Japão, em 2020
Jae C. Hong, File/AP Photo
O Japão demorou para começar a vacinação: só em fevereiro os japoneses começaram a ser imunizados. Houve uma corrida para que a população local fosse vacinada e, assim, os Jogos pudessem ocorrer em um ambiente mais próximo do normal.
Mas não foi suficiente. Em abril, as autoridades japonesas decidiram barrar torcedores de outros países. Com a piora do quadro da Covid no Japão, em julho, a decisão foi de impedir a presença de público em Tóquio e na maioria das competições em outras cidades do país.
Paralelamente a isso, todos os envolvidos nos Jogos Olímpicos— de atletas a jornalistas — tiveram de seguir uma série de protocolos e testagem para evitar o contágio. Cerca de 80% dos atletas chegaram já vacinados a Tóquio.
O COI controlou de perto os números de casos dentro da “bolha olímpica”: todos os dias um boletim era lançado com os novos registros do coronavírus entre os envolvidos com o evento, desde 1º de julho. Quase 400 casos foram reportados desde então. Desses, menos de um décimo eram atletas.
No entanto, foi durante os Jogos que Tóquio viu o número de casos disparar: perto do encerramento, em 8 de agosto, a cada dia a capital japonesa registrava mais de 5 mil pessoas com Covid. Números jamais vistos antes da pandemia.
Policial na entrada da Vila Olímpica em Tóquio, em 14 de julho de 2021
Behrouz Mehri / AFP
As autoridades garantem que o sistema de bolha ao qual atletas, dirigentes, técnicos, funcionários e jornalistas foram colocados foi suficiente para não piorar a situação da pandemia na cidade sede. Mesmo assim, protestos ocorreram ao longo dos Jogos, e o cenário da Covid-19 impediu que o COI desse um passo adiante na reabertura dos portões para o público.
A questão que fica é como ficarão os protocolos para as Paralimpíadas, que começam no fim de agosto, nos mesmos locais de competição.
A atleta de Belarus que temia voltar para casa
Krystsina Tsimanouskaya logo após uma corrida de 100 metros, em 30 de julho de 2021
Aleksandra Szmigiel//Reuters
Krystsina Tsimanouskaya viajou a Tóquio sonhando competir nos 100m e 200m rasos. Participou das eliminatórias da prova mais rápida do atletismo olímpico. Mas a velocista de Belarus se viu em um pesadelo nos dias seguintes: dirigentes a colocaram em um carro rumo ao aeroporto para que voltasse imediatamente ao país de origem.
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No aeroporto, a atleta se recusou a embarcar no avião. Disse que temia ser punida no autoritário regime de Alexander Lukashenko e pediu proteção à polícia japonesa. Então, procurou ajuda na Embaixada da Polônia, país que deu a ela um visto humanitário, e enfim viajou ao país onde deve ficar abrigada por um tempo indeterminado.
Isso tudo aconteceu porque, dias antes, Tsimanouskaya fez postagens nas redes sociais criticando a escalação da atleta para o revezamento 4x400m, prova para a qual ela não estava inscrita inicialmente. Segundo a velocista, duas corredoras bielorrussas não passaram pelos testes antidoping e não puderam competir.
Krystsina Tsimanouskaya fala com policiais no aeroporto de Tóquio, em 1º de agosto de 2021
Issei Kato/Reuters
As declarações irritaram os dirigentes de Belarus, que tentaram forçar o retorno da atleta alegando que ela passava por problemas de saúde mental. A justificativa não convenceu o COI, que abriu investigação.
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Ao fim, um técnico e um dirigente bielorrussos tiveram as credenciais cassadas e foram expulsos da Vila Olímpica. Ainda não está claro se haverá mais punição ao Comitê Olímpico Bielorrusso, mas o COI já adiantou que as investigações continuam.
Simone Biles põe saúde mental em debate
Simone Biles durante sua apresentação da final da trave da ginástica artística dos Jogos Olímpicos de Tóquio; ela ficou com o bronze
Athit Perawongmetha/Reuters
Sem Usain Bolt nem Michael Phelps, parte da imprensa esportiva colocou Simone Biles como favorita a ser o grande nome dos Jogos Olímpicos de Tóquio. A americana aparecia como favorita ao ouro em mais de uma prova da ginástica artística.
Os problemas começaram a aparecer na final por equipes da modalidade. Biles errou um salto e se mostrou claramente nervosa. Depois, deixou o local de competição e desistiu de seguir. Conseguiu, com restante do time dos Estados Unidos, levar a medalha de prata.
Mas aí as surpresas vieram: Biles desistiu de participar das finais individual geral, do salto, do solo e das barras. Só competiu na trave, e ainda assim com uma série bem aquém do que costuma fazer.
Desistência de Simone Biles em Tóquio levanta a questão: quando é necessário saber dizer não?
A razão para as desistências: a saúde mental. Médicos perceberam que a atleta estava mal e que a continuidade nas provas poderia inclusive gerar problemas à saúde física de Simone Biles. Afinal, ela sentia “twisties” — uma condição em que ginastas perdem o controle sobre o corpo nos movimentos aéreos. Geralmente, dizem os especialistas médicos, isso ocorre justamente quando o atleta passa por problemas de saúde psíquica.
O debate sobre saúde mental dos atletas já havia começado antes dos Jogos, com a desistência da tenista Naomi Osaka — japonesa que acabou acendendo a pira olímpica na Abertura — de torneios importantes da modalidade. Além disso, uma jogadora de basquete da Austrália com problemas de ansiedade decidiu não viajar ao Japão faltando semanas para o início das competições.
A expressão da diversidade em Tóquio
Raven Saunders, dos Estados Unidos, protesta em pódio dos Jogos de Tóquio
Hannah Mckay/Reuters
Olimpíadas já são naturalmente marcadas pela diversidade — afinal, são mais de 10 mil atletas de mais de 200 países competindo. Em Tóquio, porém, o tema ganhou novos contornos, seja com protestos contra o racismo e o sexismo, seja pelos atletas cada vez menos receosos em se expressarem.
As manifestações, aliás, estavam no centro do debate porque o COI costuma proibir protestos durante os Jogos Olímpicos. Após grande pressão, principalmente por parte de atletas dos EUA, o comitê permitiu que esses registros acontecessem — mas não nas cerimônias de pódio.
Daniel Bibby, jogador de rúgbi da Grã-Bretanha, se ajoelha em protesto contra o racismo antes de iniciar partida válida pelas Olimpíadas de Tóquio nesta segunda (26)
Siphiwe Sibeko/Reuters
No início, como o COI pediu, as manifestações ficaram fora do pódio: jogadores de futebol e rúgbi se ajoelharam antes do apito inicial das partidas, e o mesmo gesto marcante dos protestos contra o racismo se repetiu por parte de uma ginasta da Costa Rica. E ginastas alemãs vestiram uniformes longos contra a sexualização do esporte feminino.
Depois, porém, apareceram os primeiros protestos no pódio: a americana Raven Saunders fez um X com os braços sobre a cabeça ao receber a medalha de prata no atletismo. O esgrimista Race Imboden, também dos EUA, desenhou um X na mão também no pódio. Segundo eles, era uma forma de se manifestar contra as diferentes formas de opressão às minorias.
O COI iniciou uma investigação contra esses atletas — no caso de Raven, acabou deixando de lado depois da notícia da morte da mãe da competidora. E o comitê também decidiu investigar o uso de broches com o rosto de Mao Tsé-Tung por duas atletas da China, por considerar a foto do líder chinês uma manifestação política.
Luciana Alvarado, ginasta da Costa Rica, ergue o punho no gesto que marcou os protestos “Black Lives Matter” ao terminar sua prova de solo das Olimpíadas neste domingo (25)
Natacha Pisarenko/AP Photo
Porém, para além dos protestos, a diversidade se mostrou de forma inédita nas Olimpíadas: nunca os jogos foram tão igualitários na divisão entre homens e mulheres participantes.
Além disso, foi a competição com o maior número de atletas declaradamente LGBTQIA+, algo visto com naturalidade nas entrevistas e na participação dos competidores nas redes sociais: O site OutSports fez um levantamento que indica que, neste ano, são, pelo menos, 160 atletas lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer e não binários assumidos. Os dois últimos Jogos juntos somavam 79.
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Rivais dentro e fora das arenas
O iraniano Mohammad Jamshidijafarabadi caminha ao lado do americano Javale McGee ao fim da partida entre EUA e Irã no basquete masculino das Olimpíadas de Tóquio, em 28 de julho
Charlie Neibergall/AP Photo
Com mais de 200 países, natural que países rivais e inimigos políticos se encontrassem em quadra, nos tatames ou nos campos. Na maioria das vezes, isso aconteceu tranquilamente, como na partida entre EUA e Irã no basquete masculino, em que todos os atletas se trataram bem e se elogiaram.
A nota triste foi a desistência de judocas da Argélia e do Sudão de competir nas Olimpíadas de Tóquio porque enfrentariam um atleta de Israel — país com o qual parte do mundo islâmico considera inimigo por causa da questão palestina.
Equipe do Azerbaijão de ginástica rítmica se apresenta nas Olimpíadas de Tóquio usando uniformes pretos neste sábado (7)
Lindsey Wasson/Reuters
As guerras também foram retratadas nas competições: na ginástica rítmica, as atletas do Azerbaijão usaram um collant preto para se apresentar como forma de homenagear os mortos nos conflitos com a Armênia na disputa pela região de Nagorno-Karabakh, que se intensificaram há um ano.
Calor, umidade e vento
Pessoas passam em frente aos anéis olímpicos em Tóquio, no Japão, no domingo (25)
Eugene Hoshiko/AP Photo
Quando os organizadores dos Jogos Olímpicos marcaram o evento para o verão japonês, especialistas já alertavam para os riscos associados à estação: faz muito calor na capital nesta época do ano, e o efeito da ilha de calor potencializa a sensação térmica. A umidade altíssima não ajuda.
Isso ficou evidente quando atletas começaram a reclamar das disputas debaixo do sol quente de Tóquio. O tenista russo Daniil Medvedev desabafou ao juiz: “Eu posso morrer aqui”, afirmou durante uma das partidas de simples do torneio de tênis.
Daniil Medvedev, atleta russo, pausa durante partida de tênis dos Jogos Olímpicos de Tóquio ocorrida sob forte calor nesta quarta (28)
Patrick Semansky/AP Photo
O vento forte que sopra em Tóquio — que deveria aliviar o calor — acabou se tornando também um empecilho para os atletas. Nas provas de skate, não era difícil ver os competidores pedindo para esperar antes de entrarem em ação por causa das rajadas na Baía de Tóquio.
Do lado de fora da cerca de segurança, pessoas tentam assistir às finais do surfe nas Olimpíadas de Tóquio na praia de Tsurigasaki, em 27 de julho
Francisco Seco/AP Photo
Quem se deu bem com o vento foi surfe. Uma forte tempestade, que chegou próximo de ser considerada um tufão, chegou a preocupar as autoridades japonesas.
Mas isso acabou sendo uma boa notícia para os surfistas devido às ondas. As finais da modalidade foram antecipadas por causa do tufão, e o brasileiro Ítalo Ferreira conquistou o primeiro ouro da história do surfe olímpico.
Os Jogos das redes sociais
Douglas Souza bomba nas redes com rotina na Vila Olímpica em Tóquio
Reprodução/Instagram
A presença das redes sociais nos Jogos Olímpicos vem crescendo pelo menos desde 2004, quando ainda havia plataformas bem rudimentares. Em Tóquio, com a distância do público, elas ganharam outro protagonismo — os atletas, além de astros nas competições, estrelaram vídeos no Instagram e no TikTok e marcaram presença no Twitter.
Um exemplo disso eram os atletas gravando stories para mostrar que a cama de papelão da Vila Olímpica era, sim, resistente. O ponteiro do vôlei brasileiro Douglas sambou e nada aconteceu. O skatista Pedro Barros manobrou o skate. Nada, também. O móvel só quebrou quando um grupo de atletas de Israel pularam sobre o colchão ao mesmo tempo. Virou meme.
Douglas, aliás, ganhou milhares de seguidores ao mostrar os bastidores da concentração do vôlei masculino antes mesmo de os Jogos começarem, com Pabllo Vittar na trilha sonora.
Pop brasileiro ganha destaque em Tóquio
DJ Stari, responsável pela trilha sonora em jogos de vôlei nas Olimpíadas de Tóquio
Arquivo pessoal/Facebook
Pelas transmissões na televisão, dá para ouvir que o pop brasileiro está nas Olimpíadas. Está, por exemplo, nas arenas do vôlei, com um DJ que escolhe hits de Anitta, Barões da Pisadinha, Israel & Rodolffo e Pabllo Vittar como trilha sonora entre um ponto e outro nos jogos do Brasil.
Pabllo Vittar, aliás, emplacou o que seria o hit da delegação brasileira em Tóquio: “Zap Zum”, a preferida do ponteiro Douglas Souza, craque do vôlei masculino que virou a sensação destas Olimpíadas com suas postagens nas redes sociais.
DJ austríaco anima jogos de vôlei do Brasil com pagode, funk e sertanejo nas Olimpíadas de Tóquio
Outra música de Pabllo a aparecer nas competições foi “Energia”, uma colaboração com o duo americano Sofi Tukker que tocou na apresentação de Laura Zeng, da ginástica rítmica dos Estados Unidos.
O funk brasileiro também ganhou lugar na apresentação oficial da ginasta Rebeca Andrade. A atleta fez sua entrada no solo ao som de “Baile de favela”, o funk que mudou a vida de MC João.
Como ‘Baile de Favela’ foi parar nas Olimpíadas de Tóquio com Rebeca Andrade
Teve espaço também para o funk “Não nasceu pra namorar”, parceria entre MC Zaquin e MC Rick, que embalou os passos de Rayssa Leal, medalhista de prata no skate street feminino aos 13 anos.
Outro a usar músicas para embalar sua participação foi Hebert Conceição, medalhista de ouro para o Brasil no boxe. Ele entrou no ringue ao som de “Nobre Guerreiro”, do Olodum, antes de se tornar campeão olímpico.
Brasil faz história em Tóquio
Hebert Conceição é ouro no boxe
Ueslei Marcelino / Reuters
Os Jogos Olímpicos de Tóquio também entram para a história como uma das melhores participações brasileiras. Em número de medalhas, nunca houve uma Olimpíada tão bem sucedida para o Brasil, que conseguiu ultrapassar os 19 pódios totais do Rio de Janeiro em 2016. No total de ouros, porém, já se sabia que o caminho seria mais difícil, mas ainda assim foi o melhor desempenho “fora de casa”.
Boxe e skate, com 3 medalhas cada, foram os grandes destaques da delegação brasileira, que também teve bons desempenhos no surfe, na ginástica, na natação e no atletismo. A decepção com o vôlei de praia, que saiu sem medalha pela primeira vez desde que a modalidade entrou no programa olímpico, foi compensada pelo bronze surpreendente no tênis.
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