Repercussão da imitação de Marinho em jantar com Temer mostra que humor é uma das formas mais eficientes de comunicação

Em 1940, com a Segunda Guerra em pleno andamento, Robert Lucas, um exilado austríaco, preparava em Londres suas peças humorísticas que seriam levadas ao ar pela rádio BBC. Em hipotéticas cartas, um cabo alemão escrevia à esposa contando as agruras da frente de batalha como se fosse um privilégio excepcional servir ao amado Führer. O objetivo dessa sátira bem exagerada era mostrar as mentiras do nazismo, e, quem sabe, assim alertar os alemães para o fato de estarem sendo enganados. Ainda que não soubesse quantos ouviam suas transmissões, de maneira determinada e até obstinada, continuou a enviar as mensagens bem-humoradas. Só no final da guerra é que pôde constatar o efeito extraordinário que as suas brincadeiras haviam provocado nos ouvintes. Alguns até disseram que só não se suicidaram por causa das mensagens que ouviam.

O humor sempre teve esse poder de transmitir mensagens poderosas com menos resistência de quem as recebe. Na última semana, tivemos dois eventos que mostram como essa forma de comunicação pode apresentar efeitos marcantes. Os dois momentos foram protagonizados pelo influencer, humorista e comentarista do Pânico, da Jovem Pan, André Marinho. Jovem de apenas 26 anos, inteligente e muito articulado, Marinho se notabilizou principalmente pela extraordinária competência em fazer imitações. Em 2018 seu pai, Paulo Marinho, cedeu a casa ao então candidato à presidência da República Jair Bolsonaro para que montasse ali uma espécie de comitê político. Assim como o pai, André também era apoiador de Bolsonaro. Depois das eleições, entretanto, os Marinho viraram seus desafetos. No Pânico, André não perde a oportunidade de criticar Bolsonaro. Por esse motivo já se envolveu em fervorosos debates com admiradores do presidente.

Nesta segunda-feira, 13, o Pânico recebeu como convidada a comentarista política Barbara Destefani do canal do youtube “Te Atualizei”. Com seu jeito despojado e muito bem-humorado, ela conquistou uma impressionante legião de seguidores. Valendo-se de uma comunicação peculiar, solta e irreverente, essa mineira e dona de casa aborda os temas mais relevantes da política brasileira. Embora só se atenha às notícias veiculadas pela grande mídia e emita opiniões próprias sobre os assuntos que discute, seu canal foi desmonetizado pelo TSE, ao ser enquadrado no inquérito das fake news. Barbara não esconde sua admiração pelo presidente. É uma bolsonarista de carteirinha. Durante o programa, como era esperado, bateu boca com André Marinho. Para tornar o debate ainda mais quente, entrou na roda da conversa Rodrigo Constantino. A treta se estendeu por um bom tempo, e rendeu enorme audiência para o programa. Marinho ficou tão nervoso que as veias do seu pescoço saltaram. Como não conseguiu usar sua velha tática de falar junto com as pessoas com as quais debate, sempre com a intenção de prejudicar o raciocínio do interlocutor, ficou em evidente desvantagem naquele confronto. A sua intenção de criticar Bolsonaro não deu resultado. Barbara e Constantino levaram nítida vantagem no debate. Foi uma briga boa de se ver.

Apenas um dia depois, André voltou a ser protagonista de outro fato bastante curioso. Viralizou pelas redes sociais um vídeo em que ele faz imitações ironizando Bolsonaro. Essa sua performance ganhou relevância porque ocorreu em um jantar na casa de Naji Nahas. Além do ex-presidente Michel Temer, estavam presentes Gilberto Kassab, Roberto D’Avila, Johnny Saad, entre outros. Diante dessa turma, André imitou Bolsonaro como se pedisse ajuda a Temer para escrever a “carta à nação”. A cada frase arrancava gargalhadas de todos os presentes, especialmente do ex-presidente que fazia parte daquele diálogo fictício. As imitações de André não teriam saído daquela sala se não tivessem sido feitas diante de pessoas tão conhecidas e de tamanha importância no mundo político e empresarial. Foi um estrondoso sucesso.

Embora alguns blogs partidários do presidente Bolsonaro tenham criticado a “atitude desrespeitosa” de André, afirmando que ele debochou do chefe do Executivo, na verdade foi apenas mais uma das inúmeras imitações que Marinho costuma fazer. Além de Bolsonaro, ele imita Donald Trump, Ciro Gomes, Sergio Moro, João Doria e outras personalidades. O que esses dois eventos em que Marinho foi alvo das atenções demonstram é que quase sempre as mensagens transmitidas pelo humor atingem um número maior de pessoas, encontram menos resistências, pois quem é atingido acaba por relevar por se tratar apenas de uma brincadeira. Dessa forma, a crítica feita por Marinho ao presidente nos embates com Constantino e Barbara no Pânico só encontrou eco nos antibolsonaristas, enquanto sua interpretação imitando Bolsonaro, que talvez até tenha prejudicado mais a imagem do presidente, atingiu um público bem maior. Uma prova evidente de que o humor é uma das formas mais eficientes de comunicação, e, por isso mesmo, temida — até pelos poderosos. Siga no Instagram @polito.

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