Otimista bobo, pessimista chato ou realista esperançoso? (Fernando Guedes)

A posse de Joe Biden na Presidência dos Estados Unidos mostrou, com eloquência, que o mau uso das redes sociais pelos adeptos do negacionismo, do autoritarismo, da antipolítica não vai além de criar tensões passageiras.

Donald Trump buscou, nas redes, apoio para o seu delírio de que a eleição de Biden foi uma fraude. E encontrou. A estupidez da invasão do Capitólio enlutou cinco famílias. Fora essa tragédia, danificaram obras de arte, quebraram portas e janelas, alguns foram presos, outros se retiraram, ou foram expulsos, e o líder deles vai para casa quietinho e sozinho, onde, em breve, talvez receba a notícia de que, mesmo fora do poder, estará “impichado” e os norte-americanos livres, para sempre, de uma nova candidatura dele…

Ah! Mas as forças armadas praticamente ocuparam Washington e outras cidades, dirão os mais assustados. Claro, no país mais temeroso de atentados e mais armado do mundo, uma ação como a promovida por Trump não poderia ter outra reação. Porém, os soldados estão na rua para garantir a grande festa da democracia, que é a posse de um eleito pelo povo. Exatamente o contrário do que pretendia o então presidente dos EUA.

Abro parênteses: não acredite nessa história de que “quem decide se o povo quer viver uma democracia, uma ditadura, são as forças armadas”. Quem decide isso é o povo. As forças armadas servem ao povo. Fecho as parênteses e volto…

By the way, aquela madness action do Trump também serve para mostrar que a sociedade vai aprendendo que as ferramentas de comunicação virtual foram criadas com o objetivo inicial de promover o desenvolvimento. Pena que, aí, tem um defeito de fabricação: não há como selecionar os usuários.

Ninguém pode impedir ninguém de usar o próprio celular, o notebook, o computador para espalhar que uma vacina vai transformar você num jacaré, que a terra é plana, que sorvete é bom para combater o coronavírus, ou que a pandemia é coisa de comunista e que Legislativo e Judiciário só fazem atrapalhar o Executivo.

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Todo mundo tem consciência, também, de que não adianta nada banir das redes os espalhadores de fake news e disseminadores do ódio. Eles saem de uma e vão para outra. Podem até voltar para a mesma de onde foram banidos com um outro perfil, ou até criar a própria rede para seguir espalhando bizarrices.

Então, se não há como impedir esse mau uso das redes, podemos, pelo menos, tratar de nos blindar e limitar – sem tolher a liberdade de ninguém – a circulação de informações danosas às boas relações humanas.

Acredito que um jeito eficiente de fazer isso está ao alcance dos dedos de todos os que têm um celular, um tablet, um computador e um mínimo de bom senso: basta condenar as manifestações negacionistas e autoritárias ao isolamento absoluto.

Por mais que você tenha vontade de mostrar o tamanho das bobagens que esses grupos retrógrados, misóginos, machistas, nazifascisas divulgam pelas redes sociais, resistir a isso pode ser um caminho melhor.

Lembre-se que a base para uma comunicação efetiva, em especial nesses tempos de redes sociais, é a interação. Sem compartilhamentos, comentários, críticas ao que é escrito, as pessoas ficam falando sozinhas ou, pelo menos, entre o seu próprio grupo.

Temos que procurar, no rastro triste de 2020 que insiste em não acabar, as sementes do uso correto das redes sociais para criar novos relacionamentos políticos, profissionais, pessoais. Não podemos ter medo das redes sociais. Precisamos usá-las para a finalidade com que foram criadas: facilitar e melhorar as relações pessoais, empresariais e até entre nações. Por exemplo, a frase “nunca esqueça o bom senso” num banner no alto da sua home page funciona como incentivo para que seu time evite embarcar nessas vibes doidas que pululam na internet.

Uma vez, o grande Ariano Suassuna disse que o otimista é um tolo, o pessimista é um chato e que o bom mesmo é ser um realista esperançoso. Não podemos ser tolos a ponto de acreditar que as redes sociais deixarão de ser repositórios de asnices, nem chatos a ponto de desistir delas. Sejamos, então, realistas na observação de que os idiotas podem até ser muitos, mas não tantos a ponto de derrotar a maioria de bom senso. Que tal?

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