Hang financiou blogueiro acusado de fake news com ajuda de Eduardo Bolsonaro, apontam documentos


TV Globo teve acesso aos documentos com conversas entre o filho do presidente e Allan dos Santos, investigado em 2 inquéritos no STF. Segundo a CPI, políticos, empresários e sites usaram a rede conhecida como ‘gabinete do ódio’ para divulgar informações falsas sobre a pandemia. Mensagens obtidas pela CPI mostram como blogueiro investigado pelo STF conseguiu financiamento de empresário
Documentos obtidos pela CPI da Pandemia revelaram como o blogueiro Allan dos Santos, acusado de disseminar fake news, conseguiu financiamento de um empresário bolsonarista, Luciano Hang. Para isso, ele teve ajuda do filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL).
A CPI apurou que políticos, empresários e sites usaram a rede de disseminação de fake news — conhecida como “gabinete do ódio”. Para a CPI, a estrutura começou antes da Covid, mas ganhou força na distribuição de informações falsas sobre a pandemia.
A TV Globo teve acesso a documentos da CPI. A comissão afirma que um filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, trabalhou para conseguir financiadores para o grupo.
Foto de arquivo de 6 de setembro de 2019 do empresário bolsonarista Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan
DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO
Um deles, uma troca de mensagens entre Eduardo Bolsonaro e o blogueiro Allan dos Santos de janeiro de 2019.
Allan dos Santos é investigado em dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal que apuram disseminação de fake news, ameaças a autoridades e financiamento de atos antidemocráticos.
De acordo com a Polícia Federal, nas mensagens, Allan pede que Eduardo Bolsonaro o ponha em contato com o empresário Luciano Hang.
Blogueiro Allan dos Santos é dono do canal ‘Terça Livre’ e foi alvo de operação da PF no inquérito das fake news
Mateus Bonomi/Agif/Estadão Conteúdo
Allan escreve: “Preciso que você me coloque em contato com o Luciano Hang”.
Eduardo Bolsonaro envia o número do telefone e pergunta: “Quer que eu fale algo a ele para te introduzir?”.
Allan responde: “É melhor”.
Uma hora e meia depois, Eduardo diz: “Mandei mensagem para o Hang; Assim que ele me responder te passo”.
Allan concorda.
Mais tarde Eduardo responde: “Ele disse que você pode entrar em contato com ele. Falei que você é o nosso cara da imprensa para um projeto que desenvolvemos aqui nesta semana de aulas com o Olavo”.
Olavo é Olavo de Carvalho, astrólogo e ideólogo do bolsonarismo.
No dia seguinte, Allan diz a Eduardo: “Sobre o Hang, quando ele voltar da Europa, falarei com ele”.
Eduardo responde: “Beleza. Falei no macro com o Hang”.
Quatro meses depois, Allan dos Santos escreve: “Luciano Hang tá dentro. Patrocínio para o programa”.
Documentos obtidos pela CPI mostram que Hang financiou blogueiro acusado por fake news com ajuda de Eduardo Bolsonaro
Reprodução/Jornal Nacional
A CPI também teve acesso a uma conversa entre o blogueiro Allan dos Santos e o empresário Luciano Hang.
Depois de procurado por Allan, Luciano Hang responde: “Eduardo Bolsonaro me falou que conversou contigo”.
Luciano Hang foi convocado pela CPI da Pandemia. O depoimento dele está previsto para a próxima quarta-feira (29). Para a CPI, Allan dos Santos é um dos principais disseminadores de fake news sobre a pandemia.
“O que nós concluímos e identificamos na Comissão Parlamentar de Inquérito é a existência de uma verdadeira organização criminosa de fake news que teve papel determinante no agravamento da pandemia. Veja, essa organização criminosa começa a se articular e se constituir a partir de 2019, e, na pandemia, para reforçar o discurso negacionista do presidente da República e do seu governo”, disse o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-preisdente da CPI.
A CPI investiga também Bernardo Kuster, apontado como mais um disseminador de informações falsas.
Os senadores recolheram mais de cem postagens dele com mentiras sobre a pandemia.
Documentos obtidos pela comissão mostram que, no dia 2 de abril do ano passado, Bernardo articulou ataques ao governador de São Paulo, João Dória.
Nesse dia, Dória anunciou novas medidas de combate ao vírus. E trocou postagens com o ex-presidente Lula sobre deixar as diferenças de lado durante a pandemia.
No grupo “Direita Unida”, Bernardo manda uma mensagem:
“Recebi ordens do GDO pra levantar forte a tag #doriapiorquelula. Bora lá no Twitter. Tá subindo a tag em quarto lugar”.
GDO é a sigla usada para o gabinete do ódio.
A PF afirma que os suspeitos de fazerem parte do gabinete passaram a usar a expressão para se referir ao grupo antes mesmo da pandemia.
Em outro documento em poder da CPI, o assessor especial da presidência, Filipe Martins, também menciona o gabinete do ódio. Ele se refere a um outro assessor, Tércio Arnauld, como membro original do gabinete.
“Tudo que aconteceu foi consequência da participação dessa figura macabra amoral que é esse gabinete do ódio, que não tem outro objetivo senão o objetivo de disseminar mentiras, de atacar alvos previamente selecionados e de participar dessa forma desinformando em todos os episódios marcantes na vida nacional”, disse Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI.
O que dizem os citados
Luciano Hang afirmou que as afirmações são uma “narrativa absurda”, que não faz parte de gabinete nenhum e que é mentira que ele tenha patrocinado veículos de internet que disseminaram desinformação.
O Jornal Nacional não conseguiu contato com Eduardo Bolsonaro, Allan dos Santos, Bernardo Kuster, Filipe Martins e Tércio Arnaud.

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