Likes, carisma e gols: Richarlison possui os atributos de um ídolo moderno

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O futebol brasileiro está carente de referências? Possivelmente, mas Richarlison Andrade tem se esforçado para virar este jogo. O atacante de 24 anos é o artilheiro e grande destaque dos Jogos Olímpicos de Tóquio, competição da qual fez questão de participar, inclusive comprando uma briga com seu clube, o Everton. O esforço pode ser recompensado no próximo sábado, 7, na final diante da Espanha, em Yokohama, no estádio onde seu ídolo Ronaldo ergueu o penta em 2002. Richarlison pode não ter a genialidade do Fenômeno, longe disso, mas é um atacante eficiente e sobra no quesito que costuma caracterizar os grandes ídolos: o carisma.

Nascido em Nova Venécia (ES), o jogador revelado pelo América Mineiro teve uma infância humilde, dura, e de pouca instrução. Costumava trocar a sala de aula pelos campos de futebol, o que originou uma curiosa anedota. “Na escola reprovei até em artes… e o meu tio era o professor”, contou, em 2018, arrancando risos de todos os presentes a uma entrevista coletiva da seleção brasileira. Richarlison, no entanto, é extremamente esperto e soube fazer da simplicidade com a qual se expressa o seu grande trunfo. Ele acumula mais de 4 milhões de seguidores, entre Instagram e Twitter, e domina o ambiente virtual, mesclando bom humor e engajamento social a receita perfeita para os ídolos do século XXI.

Em entrevista a PLACAR no ano passado, Richarlison admitiu levar jeito para a coisa ao falar de seu sucesso com os torcedores do Everton. “Meu sonho é me tornar ídolo do clube, vejo estátuas de ex-jogadores no Goodison Park e imagino uma minha também. Acho que tenho um carisma natural: gosto muito das crianças, dentro de campo dou a vida pela camisa que visto. Acho que por isso eles me amam. A “dança do pombo” ajudou. A criançada copia, me dá presentes. Eles têm muito carinho por mim e eu por eles.” Sua devoção pela seleção brasileira é ainda maior, tanto que Richarlison insistiu até o fim para que o clube de Liverpool o autorizasse a disputar a Olimpíada, na vaga de Pedro, barrado pelo Flamengo.

Nos últimos dias, o “Pombo” (apelido que ganhou ao comemorar seus gols com o funk da “Dança do Pombo”), divertiu seus seguidores nas redes ao flertar com Juliette, a campeã do programa Big Brother Brasil, ao parabenizar os medalhistas olímpicos brasileiros e ao fazer uma provocação aos argentinos, eliminados na primeira fase do torneio. Ele também sabe falar sério. Nos últimos anos, realizou campanhas em favor do SUS e da vacinação contra a Covid-19, e apoiou medidas antirracistas.

“O Richarlison é um exemplo de jogador brasileiro que tem atributos muito fortes de comunicação contemporânea. Primeiro de tudo, ele é um criador de conteúdo, um criador de tendência, um cara que tem a dança do pombo e que sabe se expressar com códigos de memes, que são bem recebidas pelo público jovem de rede social, que está em busca mais de uma comunicação mais divertida, mais lúdica, mais evasiva até certo ponto”, analisa Bruno Maia, especialista em inovação e novos negócios na indústria do esporte, e sócio da agência 14.

Ao se posicionar sobre a pandemia e o racismo, Richarlison mexe em um vespeiro do qual a maioria de seus colegas de profissão prefere fugir. O atacante, porém, tem conseguido driblar a polarização política. “Ele é, ao mesmo tempo, o cara que dá dinheiro para atletas premiados em Olimpíadas de Matemática, que se envolve em causas sociais e políticas, que não se furta de tomar posição e mesmo assim não cola nele a pecha de um jogador político em um sentido chato.”, completa Maia.

“O Richarlison é um ótimo exemplo de como usar bem as mídias sociais. Não o vejo em polêmicas e sempre traz assuntos com intuito de dias melhores, principalmente para o povo brasileiro. Os atletas em geral precisam entender que possuem um poder midiático incrível”, avalia Renê Salviano, fundador da agência de marketing esportivo HeatMap.

Orientação e maturidade

Richarlison comemora um de seus cinco gols em TóquioLucas Figueiredo/CBF

Richarlison, no entanto, não age sozinho. Como todo jogador de elite, ele conta com o apoio de um estafe que o orienta em relação às postagens e à melhor forma de se expressar. “Ele que controla as redes dele, tem a liberdade total para postar, como foi nesta brincadeira com a Juliette, mas sempre que ele tem alguma dúvida se pode pegar mal, ele nos pergunta. É uma pessoa muito inteligente”, comenta Oswaldo Botrel, assessor do atleta.

A PLACAR, Richarlison contou em 2020 que gosta de assistir vídeos de atletas como Edmundo e Romário e, por vezes, se inspira no modo provocativo dos antigos atacantes. Mas com parcimônia. “Hoje ele tem uma noção maior dos efeitos daquilo que ele fala. Se algo passa do ponto, nós falamos, mas isso é muito raro. Ele está cada vez mais maduro.”, explica Oswaldo. “O nosso media training é diferente, ele é um bom menino e por isso orientamos ele a ser o mais natural e autêntico possível.”

Ricardo Dias, CEO da Adventures, brandtech que atua como uma plataforma de marketing e cuida da imagem de celebridades como Luiza Sonza e a skatista Letícia Bufoni, diz que esta é a estratégia correta. “A recomendação que fazemos, seja para uma marca ou uma pessoa, é falar a verdade. Não tente entrar numa discussão da qual não entende, nem se alavancar do contexto cultural do momento. Cada um tem sua personalidade e é preciso respeitá-la. O segredo é humanizar cada vez mais a celebridade.”

Nada disso, no entanto, funcionaria sem o principal: gols. Richarlison já marcou cinco, sendo três na estreia diante da Alemanha, e tentará repetir o feito de outro ídolo seu, Neymar, o de subir ao topo do pódio vestindo a camisa 10. A final diante da Espanha acontece no próximo sábado, 7, a partir das 8h30 (de Brasília).

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