Não há comparação entre a fala infeliz de Wagner Rosário e a ameaça covarde de Zé de Abreu

Nesta semana, mais um assunto polêmico chamou a minha atenção e, diante dos fatos que bombaram na mídia, me senti na obrigação de manifestar minha opinião. No sábado passado, 18, o ator José de Abreu e a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) se desentenderam no Twitter. Tudo começou com um post compartilhado por Zé de Abreu, que continha ameaças à deputada: “Se eu encontro na rua, soco até ser preso”. Logo após a publicação, esse texto foi retirado. Na mesma semana, durante a CPI da Covid-19, mais um ato considerado “machista”: o ministro Wagner Rosário, da Controladoria-Geral da União, chamou a senadora Simone Tebet de “descontrolada” após um bate-boca entre as partes. Essas divergências entre as senadoras e os ministros que participam da CPI têm se repetido com frequência, o que torna o ambiente mais tenso a cada sessão. Tebet foi acusada pelo ministro de falar inverdades, e ela rebateu, dizendo que Rosário se comportava como “um menino mimado”. Ele, por sua vez, respondeu: “A senhora está totalmente descontrolada, me atacando”. Situações distintas, porém, ambas desnecessárias e condenáveis, embora não possam ser colocadas no mesmo nível de gravidade. Como pai de menina, não posso admitir qualquer atitude de desrespeito à figura feminina. Mas penso que deve haver bom senso para que se diferencie um fato do outro.

José de Abreu é conhecido por defender pautas de esquerda e por criticar, de forma intensa, qualquer atitude da direita. Em um comentário anterior ao desentendimento com a deputada, o ator a chamou de “canalha”. Ameaçada fisicamente por Zé de Abreu, Tabata rebateu o compartilhamento da publicação pelo ator, pedindo aos seguidores que refletissem a respeito: “Não deixemos a intolerância, mesmo a mais sutil ou invisível, tomar conta da política brasileira”. Para mim, é bem mais grave que isso. É mais um tema jogado para debaixo do tapete, fragilizando as relações, dando oportunidade, mais uma vez, para a impunidade. No caso, uma ameaça de agressão física, para parte da mídia, se iguala a uma fala infeliz em um momento de discussão acalorada, o que é inadmissível. Uma coisa não justifica a outra, mas existe uma distância entre elas. Uma pessoa é ameaçada fisicamente e tudo acaba em pizza. Por essas e outras, vivemos em um país em que não se leva a sério questões como essas. Em resposta às ameaças sofridas, a deputada decidiu notificar Zé na Justiça. Tabata entrará com um pedido judicial para que o ator esclareça a razão de ter compartilhado na internet as ameaças contra ela. Ao saber da decisão, José de Abreu respondeu: “Eu não tenho do que me arrepender ou pedir desculpas. RT [retuíte] para mim nunca significou apoio ou concordância. Dou RT em vários posts com os quais não concordo, como uma maneira de ampliar”. Com essa resposta, Abreu foi chamado de machista pelos internautas, que encheram as redes de comentários com críticas à postura do ator. Mas isso não basta.

No caso da CPI do Covid-19, ao chamar a senadora Simone Tebet de “descontrolada”, o ministro da CGU, Wagner Rosário, também foi acusado nas redes, de machista após suas falas inadequadas no Senado. Segundo a pesquisadora e cientista política Mariela Rocha, a afirmação do ministro incorpora esse machismo presente em nossa sociedade. Após o ocorrido, com as provas apresentadas pela senadora do Mato Grosso do Sul, a respeito de supostas ações e omissões da CGU em negociações do Ministério da Saúde com a Precisa Medicamentos, o ministro passou de testemunha a investigado, causando um desconforto para ele, que tentou se defender das acusações sofridas e passou a atacar a senadora após discussão entre as partes. Após o incidente, Simone se pronunciou, dizendo que Rosário se desculpou em particular, o que fez com que ela desse o assunto por encerrado. Quanto aos demais senadores, a maioria criticou a atitude machista de Wagner, classificando-o de “petulante”. Como membro titular da CPI da Covid-19, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) advertiu Wagner Rosário, durante sua fala com a senadora, pedindo ao chefe da CGU que “baixasse a bola” ao se dirigir a Simone. Mais um incidente de desrespeito, infelizmente comum em ambientes políticos.

O que fazer diante desse “machismo”, que, embora declarado, não costuma sofrer punições adequadas. Hoje em dia, no Brasil, segundo o artigo 7º da Lei nº11.340/06, são consideradas violências contra a mulher atos ou ameaças de violência física, condutas de violência psicológica, violência moral (como calúnia, difamação ou injúria) e outras formas que as coloquem em uma situação de fragilidade perante o homem e o machismo que se estampa no país. Portanto, a lei está aí para quem quiser ver. O que falta neste nosso Brasil é atitude de cumprimento dessas leis. Acredito que, se fossem cumpridas à risca, ameaças como a de Zé de Abreu seriam evitadas. E falas inapropriadas contra as mulheres teriam maior comedimento, uma vez que poderiam sofrer punições cabíveis. Um dia, quem sabe.

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