Pedro Parente: “Confio nas instituições brasileiras”

Poucos gestores demonstram tanta desenvoltura para atuar nas esferas pública e privada da administração quanto o engenheiro carioca Pedro Parente. O executivo, hoje presidente do conselho do conglomerado de alimentos BRF, já comandou a Casa Civil na era Fernando Henrique Cardoso e presidiu a Petrobras no governo de Michel Temer. Em ambas as ocasiões, enfrentou gargalos de difícil solução, como um apagão energético e a recuperação econômica da petroleira após os escândalos de corrupção expostos pela Operação Lava-Jato. Saiu-se bem. Com perfil conciliador e fala mansa, ele decidiu, aos 68 anos, se lançar também no mercado financeiro, gerenciando um fundo de private equity, o que lhe garante contato com investidores dispostos a apostar no Brasil. Nesta entrevista a VEJA, por videoconferência, Parente se revela preocupado com os rumos do país, mas reforça sua inabalável confiança na solidez da democracia.

No início da era Bolsonaro, vigorava um otimismo do empresariado em relação à agenda econômica. Como o senhor avalia a situação à luz de quase três anos de governo? Uma análise fria da economia indica avanços relevantes, como a aprovação da reforma da Previdência e o marco regulatório do saneamento básico, temas que se arrastavam há anos. Quanto ao otimismo, ele era insuflado pela agenda liberal, mas aí ocorreram dois problemas. O primeiro reside no aumento do radicalismo e do esgarçamento da situação política, que fizeram surgir no cenário o fantasma de um rompimento institucional, péssimo para o país. Já o segundo nó está nas altas expectativas. A credibilidade de um governo é medida pelo equilíbrio entre o que promete e o que entrega. No caso do ministro Paulo Guedes, as realizações estão muito aquém das promessas.

De que forma a crise política freia a economia? Quando falamos de agentes econômicos, isso soa como um monte de figuras abstratas, mas são pessoas que investem de forma racional, apostando que não perderão dinheiro. Para tal, precisam estar motivadas por sinais promissores a respeito do futuro. O próprio Guedes já admitiu que a crise política atrapalha, e as projeções dos analistas confirmam sua percepção.

A carta do presidente emitindo sinais de que respeitará as instituições suaviza o sacolejo político? Bolsonaro lançou uma carta digna de alguém que entende o papel das instituições, mas não aconteceu de maneira espontânea. Foram as instituições, por meio de autoridades de outros poderes, que sinalizaram que o caminho que ele vinha trilhando era inviável. Não dá para prever o que o horizonte nos reserva, mas reforço minha crença nas instituições brasileiras. Agora, um gesto, uma carta não bastam. É preciso uma sucessão de fatos consistentes na direção correta para recuperar a confiança.

Com a experiência de quem já atravessou crises diversas no poder, por onde começaria? A sensibilidade para compreender quais agendas devem estar na ordem do dia é crucial — e hoje a mais importante delas é a ambiental. De nada adianta o presidente ir à tribuna da ONU defender a neutralidade de carbono para 2050 se não tomar ações concretas no presente. Não precisamos derrubar um único pé de árvore nas florestas protegidas para produzir 1 tonelada a mais de soja ou milho. É plenamente possível ao Brasil assumir uma meta de desmatamento zero para a Amazônia em cinco anos.

“Houve avanços relevantes na economia, mas a credibilidade de um governo é medida pelo equilíbrio entre o que ele promete e o que entrega. Guedes realizou muito aquém do esperado”

O senhor vê risco de boicote aos produtos agrícolas brasileiros? O risco existe e não deve ser minimizado. Governos e empresas europeias sentem a pressão dos ativistas ambientais. Também não podemos esquecer que, não raro, países desenvolvidos disfarçam o protecionismo na forma de medidas não tarifárias. Quando o governo brasileiro afrouxa a política ambiental, abre espaço para que eles protejam seus produtores internos. O radicalismo traz benefícios para uma ala de apoiadores do presidente, mas para o conjunto da economia é deletério e desnecessário.

O empresariado brasileiro é tímido na defesa do tema ambiental e da própria democracia? Participei de um manifesto importante da área empresarial, junto com diversos setores da sociedade, afirmando que este é um país democrático e que as eleições do ano que vem vão ocorrer normalmente. Fomos assertivos. O problema foi aquele documento da Fiesp, que uniu organizações de naturezas diferentes. Não tinha como ele não ficar genérico e insípido.

Dá para pôr o país nos trilhos no tempo que ainda resta ao governo? O essencial é demonstrar responsabilidade fiscal sem recorrer a pirotecnias. Discussões complexas estão à mesa, como o teto de gastos e o pagamento de precatórios. Claro que pautas cruciais dependem de um esforço legislativo, e o alinhamento que havia entre Câmara e Senado parece não existir mais. É fácil costurar o apoio do Congresso se você é descomprometido com a responsabilidade fiscal. Só que não é isso que o país quer nem precisa.

A economia anda aquecida no cenário internacional, mas internamente prevalecem atividade baixa e inflação alta. A que se deve isso? A inflação é derivada de choques externos. Tivemos questões relacionadas ao aço, ao petróleo e às commodities agrícolas, cuja demanda disparou sobretudo por parte da China. Ainda bem que não tentamos controlar os preços com medidas estranhas, como tabelamento ou congelamento. A inflação é um tema para resolver de maneira verdadeira e estrutural. Isso vai demandar algum tempo.

A elevação no preço das commodities, item essencial na pauta de exportações brasileira, pode impulsionar a recuperação econômica? A alta de preços recente não afeta a economia de maneira uniforme. Os setores que as produzem certamente se beneficiam, mas outros que dependem delas, como a indústria de alimentos, acabam prejudicados. A sociedade também se ressente, por causa da inflação. De modo geral, não acho que isso vá ter impacto significativo na recuperação do país.

Outro desafio é vencer a crise energética. O senhor, que precisou lidar com um apagão no passado, vê semelhanças entre as duas situações? O problema atual já levou a reduções da projeção do crescimento em 2022 e, se ele se prolongar, será ainda pior. Há diferenças entre os dois momentos. Em 2001, o nó estava em manter a geração de energia ao longo do dia. Hoje ele está relacionado aos horários críticos. O fundamental é tomar as medidas no momento certo. Atrasar decisões que são necessárias só vai aumentar o custo para as famílias e as empresas. Outro ponto vital é manter uma comunicação transparente e constante com a sociedade.

Greve de caminhoneiros é mais um problema atual que o senhor também enfrentou, quando presidente da Petrobras. De novo, são situações de natureza distinta. Antes, agiam contra o governo e agora estão a favor dele. Acho, aliás, muito estranho.

Sua saída no auge daquela greve deixou alguma mágoa? Nenhuma, até porque foi uma decisão minha. Entendi que o melhor para a Petrobras era a minha demissão, porque estava havendo um ataque à empresa e a suas políticas legítimas.

Faz sentido um governo de orientação liberal tentar controlar o preço dos combustíveis por meio de medidas fiscais? Me parece um erro buscar equacionar a alta dos preços com redução de impostos, ato que beneficia inclusive donos de iates e carrões. Deveria haver uma política para amenizar o impacto das flutuações internacionais voltada exclusivamente para caminhoneiros autônomos, os que mais sofrem com os aumentos sucessivos. A Petrobras é uma sociedade de economia mista. Se quiser interferir no valor dos combustíveis, o governo terá de fechar seu capital. Deixo claro que não sou a favor disso. Mas, do jeito que está, a situação é esquizofrênica.

Fala-se muito em uma terceira via, sem Bolsonaro nem PT, para a eleição de 2022. O senhor confia que ela vai se concretizar? A maioria do país é de centro e esse deveria ser o grupo determinante para o resultado da eleição. Mas é essencial que o centro se una e construa uma alternativa viável. Até agora não aconteceu, mas o pleito está aberto. O quadro nunca se define um ano antes. E tenho outra convicção: se um candidato de centro for para o segundo turno, as chances de se eleger são muito grandes.

Dá para arriscar um nome capaz de aglutinar essas forças? Não. Mas é necessário que isso ocorra.

Entre Lula e Bolsonaro, como o senhor se posiciona? Vou usar aqui a expressão ideal para uma saída estratégica: o voto é secreto. Mas não votarei a favor de quem possa colocar instituições em risco.

“Se quiser interferir no preço dos combustíveis, o governo terá de fechar o capital da Petrobras. Deixo claro que não sou a favor disso. Mas, do jeito que está, a situação é esquizofrênica”

É possível levar a eficiência da gestão privada para dentro do Estado? Vivemos distorções derivadas do sistema de governo que se convencionou chamar de presidencialismo de coalizão. A máquina pública perde sua unidade para atender aos objetivos dos partidos. Ministérios são destinados a grupos que atuam segundo sua própria visão. Metas são definidas de maneira genérica e desdobradas em despesas sem coerência. A gestão, no setor privado, requer qualidade total. Em tese, é perfeitamente viável replicá-la em órgãos públicos.

Mesmo com o Centrão fazendo o debate girar em torno de cargos e emendas? Evidentemente, a situação atual deixa a desejar. A boa gestão pode existir mesmo em um quadro de coalizão, mas requer que o presidente queira fazer isso, exercendo a autoridade que só ele tem. Quando fui ministro da Casa Civil de Fernando Henrique, atuava como articulador, buscando uma coerência entre as ações dos ministérios. Não é justo dizer que as distorções de agora são características só deste governo, mas elas são certamente nocivas para o uso da verba pública. Não estou fazendo uma crítica ética ou moral, apenas ressaltando que temos como melhorar.

Como, exatamente? A renovação é relevante. Na chefia do Executivo, ela depende de pessoas dispostas a incorrer em um grande sacrifício pessoal. E tal entusiasmo se encontra apenas entre indivíduos que ainda não estão contaminados pela política na forma como ela é praticada no Brasil.

Seu filho, Rafael Parente, é pré-candidato ao governo do Distrito Federal. O senhor apoia essa iniciativa? É óbvio que, como pai, me preocupo. Não quero que ele sofra. Mas a gente precisa de mais atitudes como essa, porque acredito no idealismo e na ética, uma ética que eu prego e a gente pratica em família.

Publicado em VEJA de 29 de setembro de 2021, edição nº 2757

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