Por que seu corpo reage de forma diferente ao mesmo alimento em dias diferentes? Lucas Peralles explica o que a ciência já descobriu

Diego Velázquez
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Lucas Peralles

Você já percebeu que um alimento pode provocar sensações completamente diferentes dependendo do dia? Em algumas ocasiões, ele proporciona saciedade, disposição e bem-estar. Em outras, parece causar sono, fome pouco tempo depois ou até desconforto digestivo. Durante muitos anos, essas diferenças foram atribuídas apenas ao acaso ou às características individuais de cada pessoa. No entanto, Lucas Peralles, nutricionista esportivo e especialista em comportamento alimentar, explica que a ciência vem demonstrando um cenário muito mais complexo: o organismo responde aos alimentos de acordo com o contexto fisiológico em que se encontra naquele momento.

Essa mudança de perspectiva representa um dos avanços mais interessantes da nutrição moderna. Pesquisadores passaram a compreender que o metabolismo não funciona como uma máquina previsível, capaz de responder sempre da mesma forma aos mesmos nutrientes. Horas de sono, nível de estresse, prática de atividade física, composição da microbiota intestinal, inflamação de baixo grau e até a qualidade da refeição anterior podem modificar a maneira como o corpo absorve, utiliza e armazena energia. Isso ajuda a explicar por que uma alimentação que parece funcionar muito bem em determinado período pode produzir respostas diferentes semanas depois.

O metabolismo responde apenas ao alimento ou também ao contexto?

Existe uma tendência de imaginar que cada alimento provoca uma resposta fixa no organismo. Entretanto, o metabolismo funciona de maneira dinâmica, integrando informações provenientes de diversos sistemas ao mesmo tempo. Antes mesmo de iniciar a digestão, o cérebro já avalia o estado energético do organismo, os hormônios circulantes, o ritmo biológico, o nível de atividade física recente e até fatores emocionais capazes de influenciar a forma como os nutrientes serão utilizados.

Esse conceito é conhecido como flexibilidade metabólica, capacidade que o organismo possui de adaptar continuamente seu funcionamento às necessidades do momento. Em situações de maior demanda energética, por exemplo, os músculos tornam-se mais eficientes na utilização da glicose. Já em períodos de menor atividade física ou de privação de sono, essa resposta pode ser diferente. Conforme explica Lucas Peralles, compreender essa flexibilidade ajuda a abandonar a ideia de que existe um alimento universalmente bom ou ruim, independentemente do contexto em que é consumido.

O sono e o estresse realmente modificam a resposta aos alimentos?

Dormir pouco não provoca apenas sensação de cansaço; diversos estudos mostram que noites mal dormidas alteram a produção de hormônios relacionados ao controle da fome e da saciedade, aumentam a liberação de cortisol e reduzem a sensibilidade à insulina. Como consequência, o organismo passa a administrar a glicose de maneira menos eficiente, favorecendo oscilações na glicemia e maior desejo por alimentos ricos em açúcar e gordura.

O estresse produz efeito semelhante, visto que, quando o cérebro identifica uma situação estressante, ocorre ativação do sistema nervoso simpático e aumento da produção de cortisol e adrenalina. Embora essas respostas sejam importantes para lidar com desafios imediatos, sua persistência modifica o metabolismo energético, influencia o apetite e pode alterar a forma como o organismo responde exatamente ao mesmo alimento consumido em um momento de maior tranquilidade. Na avaliação de Lucas Peralles, isso explica por que refeições aparentemente idênticas nem sempre produzem os mesmos efeitos sobre disposição, saciedade e controle da glicemia.

Qual é o papel da atividade física e da microbiota nesse processo?

A prática regular de atividade física modifica profundamente a forma como o organismo utiliza energia. Após o exercício, os músculos tornam-se mais sensíveis à ação da insulina, facilitando a entrada de glicose nas células para reposição das reservas de glicogênio. Essa adaptação melhora a eficiência metabólica e pode fazer com que um mesmo alimento seja utilizado de maneira diferente em comparação com dias marcados pelo sedentarismo ou por longos períodos sentado.

Lucas Peralles
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Outro protagonista dessa história é a microbiota intestinal. Trilhões de microrganismos participam da digestão de fibras, produzem metabólitos importantes, influenciam o sistema imunológico e mantêm comunicação constante com o cérebro por meio do chamado eixo intestino-cérebro. Pesquisas recentes sugerem que diferenças na composição da microbiota ajudam a explicar por que indivíduos apresentam respostas glicêmicas distintas após consumir exatamente os mesmos alimentos. Conforme destaca Lucas Peralles, esse é um dos motivos pelos quais a nutrição caminha cada vez mais para abordagens individualizadas, considerando características biológicas que vão muito além das calorias.

A inflamação silenciosa também interfere no metabolismo?

Outro fator frequentemente ignorado é a presença da chamada inflamação crônica de baixo grau. Diferentemente de uma infecção aguda, ela costuma evoluir de maneira silenciosa, sendo favorecida por sedentarismo, excesso de gordura visceral, noites mal dormidas, estresse persistente e alimentação desequilibrada. Esse estado inflamatório modifica a comunicação entre hormônios e tecidos, reduz a eficiência da insulina e interfere diretamente na forma como o organismo administra os nutrientes.

Quando essa inflamação está presente, respostas metabólicas tornam-se menos previsíveis. O controle da glicemia pode ficar prejudicado, o aproveitamento dos nutrientes sofre alterações e o corpo tende a apresentar maior dificuldade para manter o equilíbrio energético. Sob essa perspectiva, Lucas Peralles ressalta que avaliar apenas o alimento consumido significa ignorar um conjunto de fatores que influencia continuamente o funcionamento do metabolismo. A qualidade do ambiente interno do organismo é tão importante quanto a qualidade da própria alimentação.

A nutrição do futuro será cada vez mais personalizada

As descobertas da ciência mostram que dois indivíduos podem consumir a mesma refeição e apresentar respostas completamente diferentes. Mais do que isso, a mesma pessoa pode reagir de maneira distinta ao mesmo alimento em dias diferentes, dependendo do sono, do estresse, da atividade física, da composição da microbiota, do estado inflamatório e do ritmo biológico. O metabolismo está longe de ser um sistema rígido; ele se adapta continuamente às condições em que o organismo se encontra.

Esse conhecimento representa uma mudança importante na forma de compreender a alimentação. Em vez de buscar respostas universais, a nutrição moderna procura entender como diferentes fatores interagem para determinar a resposta de cada organismo. Como explica Lucas Peralles, cuidar da saúde metabólica significa olhar além do prato e reconhecer que alimentação, sono, movimento, equilíbrio emocional e funcionamento intestinal fazem parte de um mesmo sistema. É essa integração que ajuda a explicar por que o corpo nunca responde exatamente da mesma maneira ao mesmo alimento.

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