A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental e relações familiares, observa que exemplos concretos, mesmo quando fictícios e compostos a partir de situações comuns, ajudam a entender como o gaslighting realmente acontece no dia a dia, longe da imagem dramática que muitas vezes se imagina sobre o tema.
Um caso hipotético e ilustrativo, que representa um padrão recorrente sem descrever ninguém específico ou identificável, pode tornar esse mecanismo mais fácil de reconhecer para quem talvez esteja vivendo algo bastante parecido sem saber nomear.
Uma cena comum: o início da dúvida
Imagine um casal comum que combina de se encontrar às oito da noite num restaurante conhecido. Um deles chega já às oito e quinze e, quando questionado gentilmente sobre o atraso, responde com total convicção: “a gente combinou oito e meia, você que se confundiu de novo”.
Isolado, esse episódio parece um mal-entendido qualquer, do tipo que acontece em qualquer relação saudável de vez em quando. Mas, se situações parecidas se repetem semana após semana, sempre com a mesma certeza absoluta do outro lado, a pessoa começa a duvidar da própria capacidade de lembrar até combinados simples do cotidiano.
Como as pequenas negações se acumulam ao longo do tempo?
Cada episódio isolado é pequeno demais para parecer, sozinho e visto de forma isolada, um motivo de preocupação real. Uma data errada aqui, uma versão bem diferente de uma conversa ali, um “isso nunca aconteceu” dito com total naturalidade em outro momento qualquer.
Taiza Tosatt Eleoterio destaca que é justamente essa repetição de pequenas distorções, e não um único evento marcante e óbvio, que caracteriza o gaslighting na maioria dos casos reais observados na prática clínica cotidiana.
O momento em que ela passa a duvidar de si mesma
Depois de vários meses vivendo esse padrão constante, a pessoa começa a anotar compromissos com muito mais cuidado, a gravar conversas mentalmente, a se policiar antes de afirmar qualquer coisa com certeza absoluta. Ela passa a acreditar que talvez o problema seja mesmo sua memória, sua percepção, sua capacidade de entender direito o que acontece ao seu redor.
Esse é o ponto exato em que o mecanismo se torna mais perigoso: a pessoa deixa de confiar na própria versão dos fatos antes mesmo de considerar seriamente que o outro possa estar distorcendo a realidade de forma consistente e deliberada. Ela passa a pedir desculpas com frequência bastante alta, mesmo quando não tem certeza do que fez de errado, apenas para evitar mais um episódio de discordância.
Como o padrão começa a ser reconhecido
Taiza Tosatt Eleoterio pondera que o reconhecimento costuma vir de fora, através de um amigo próximo que estranha a versão contada, ou de um momento em que a pessoa finalmente registra uma conversa por escrito e percebe a discrepância entre o que foi dito e o que depois foi completamente negado.
Esse momento de reconhecimento não resolve o problema imediatamente por si só, mas costuma ser o ponto de virada decisivo que permite buscar ajuda especializada e nomear, finalmente, o que estava acontecendo o tempo todo em silêncio absoluto.
Reconhecer o padrão é o primeiro passo
Casos como esse, embora fictícios e construídos com cuidado para fins ilustrativos, refletem uma dinâmica presente em muitas relações reais, que, conforme elucida Taiza Tosatt Eleoterio, é silenciosa o suficiente para passar despercebida por quem a vive de perto, dia após dia, sem perceber.
Nomear esse tipo de padrão, mesmo por meio de um exemplo hipotético como este, já ajuda quem se reconhece nele a dar o primeiro passo real em direção a buscar apoio adequado e especializado, sem se sentir completamente sozinho nessa descoberta.